Curtailment intensifica riscos ao modelo de cogeração, responsável por 10% da matriz elétrica brasileira
As usinas de cogeração de energia a partir da biomassa enfrentam desafios desde dezembro de 2025 devido à aplicação do chamado curtailment, mecanismo utilizado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) para limitar ou interromper a exportação de energia ao Sistema Interligado Nacional (SIN) em períodos de baixa demanda ou restrições operacionais.
Segundo Newton Duarte, presidente-executivo da Cogen (Associação da Indústria de Cogeração de Energia), a medida gera impactos mais severos para as usinas de cogeração porque elas produzem simultaneamente energia elétrica e térmica. Diferentemente de outras fontes, essas unidades possuem pouca flexibilidade para reduzir a geração sem comprometer processos industriais.
Atualmente, a cogeração a partir de biomassa soma 18,8 GW de capacidade instalada e representa cerca de 85% da cogeração nacional, que totaliza 22 GW. A bioeletricidade tem papel estratégico na matriz energética brasileira, respondendo por aproximadamente 10% da capacidade de geração do país.
O bagaço da cana-de-açúcar é responsável por cerca de 70% da cogeração proveniente de biomassa no Brasil. Por isso, eventuais limitações na geração podem afetar diretamente a produção de açúcar e etanol, além de outras atividades ligadas ao setor sucroenergético.
Os prejuízos ocorrem em duas frentes. De um lado, as usinas deixam de comercializar energia e podem precisar comprar eletricidade para cumprir contratos, muitas vezes a preços elevados. De outro, a redução da geração compromete o fornecimento de vapor e energia necessários ao funcionamento industrial, reduzindo a eficiência produtiva e podendo até provocar paralisações.
Para Duarte, embora o curtailment seja importante para garantir a segurança do sistema elétrico, é necessário considerar as particularidades da cogeração nos critérios de despacho. Ele defende avanços regulatórios que valorizem a natureza integrada dessas usinas e estimulem mecanismos de resposta da demanda. Caso contrário, o país corre o risco de penalizar uma das fontes mais eficientes e sustentáveis de sua matriz energética, com reflexos sobre empregos, investimentos e o agronegócio.

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