Há algo curioso acontecendo com o entretenimento moderno. Uma parte da sociedade (geração Nutela) parece ter declarado guerra aos heróis que marcaram gerações inteiras. Hoje, personagens como Rambo, Chuck Norris, Bud Spencer e Terence Hill são frequentemente julgados por critérios que pouco têm a ver com a época em que surgiram. Para alguns críticos, eles representam violência excessiva. Para milhões de espectadores, representam coragem, aventura, justiça e diversão.
O mais intrigante é que essa condenação costuma ignorar um detalhe fundamental: a humanidade sempre contou histórias violentas. Muito antes do cinema, elas já estavam presentes nos livros que moldaram civilizações. Basta abrir o Mahabharat, o Alcorão, a Ilíada, a Torá ou a Bíblia onde encontraremos a narrativa de Davi enfrentando Golias. O jovem pastor derruba o gigante, corta-lhe a cabeça e torna-se símbolo de bravura. Ninguém lê essa passagem para aprender violência; lê para compreender coragem, superação e fé.
O mesmo raciocínio vale para o cinema clássico de ação. Rambo não era um manual de comportamento. Chuck Norris não era um professor de relações internacionais. Eram personagens de ficção criados para entreter. Assim como os faroestes, os filmes de guerra e as aventuras dos anos 1980 e 1990.
A geração que cresceu assistindo a esses filmes também acompanhava desenhos como Pernalonga e Pica-Pau. E, apesar de toda a pancadaria cartunesca, não saiu pelas ruas perseguindo coiotes ou carregando dinamite. Porque a esmagadora maioria das pessoas sempre soube distinguir fantasia e realidade.
Talvez o verdadeiro problema não esteja nos filmes antigos, mas na dificuldade moderna de aceitar que uma obra possa ser apreciada sem servir como cartilha moral. O cinema viveu uma era dourada quando ousava criar heróis maiores que a vida, vilões inesquecíveis e histórias sem pedir desculpas por existir.
A questão não é defender a violência. É defender a capacidade de compreender contexto, ficção e arte. Quando esquecemos essa diferença, o risco não é apenas perder grandes personagens. É perder também a liberdade de apreciar histórias pelo que elas são: histórias.
Isso porque a grande maioria não assistiu ou sequer ouviu falar de um dos maiores westers brasileiro: Meu nome é Tonho (1969).



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