No princípio, quando o tempo ainda não tinha nome e o céu se confundia com a terra, ergueram-se os primeiros homens. Não nasceram de um só ventre, nem de um único casal, mas do sopro dos deuses e do tecido cósmico que sustentava o universo.
Dos cantos antigos da Índia, contam que o gigante sagrado Purusha foi oferecido em sacrifício. De sua boca vieram os cantores e sacerdotes; de seus braços, os guerreiros; de suas pernas, os que sustentam a terra; e de seus pés, os que a cultivam. Assim, os homens se espalharam como fragmentos de um corpo divino, cada um portando a centelha de um destino maior.
Nas terras dos arianos, recorda-se o nome de Yima, o guardião do primeiro jardim luminoso. Sob sua mão, a humanidade floresceu sem fome, sede ou sombra de morte. Mas quando o frio das eras cobriu o mundo, Yima abriu cavernas e abrigos profundos, guardando sementes, animais e homens, para que a vida jamais fosse apagada.
Nos vales da Mesopotâmia, os sábios narravam a história de Adapa, moldado pelas águas e pelo barro das mãos de Ea. Dotado de sabedoria, mas condenado à mortalidade, Adapa foi o arquétipo do homem: frágil e forte, capaz de tocar o céu com o espírito, mas sempre ligado à terra pelo corpo. E junto dele, na epopeia de Gilgamesh, veio Enkidu, o homem selvagem, filho da argila e do vento, que caminhava com as feras até aprender o caminho da cidade e da amizade.
E na Grécia, onde o Olimpo se erguia sobre nuvens e trovões, ergueu-se a lenda de Prometeu. Ele moldou os homens do barro úmido e lhes ofereceu o fogo roubado dos deuses. E com o fogo acendeu não apenas a chama da vida, mas a da consciência, que jamais se apagaria.
Assim nasceram os primeiros homens: uns do sacrifício cósmico, outros da sabedoria, outros da argila ou do sopro divino. Não eram iguais, mas carregavam em si a mesma busca – o desejo de entender o mistério da existência, de onde vieram e para onde vão.
E o eco dessas histórias, contadas à beira do fogo e gravadas em pedra, ainda ressoa nos cantos do mundo, lembrando que os homens iniciais não foram apenas carne e sangue, mas sonhos dos deuses que ousaram caminhar sobre a terra.


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