Olhem que contradição amarga: idolatramos a infância nos comerciais de TV, nos corredores climatizados dos shoppings, nas campanhas de Dia das Crianças e nas falas emocionadas de políticos em palanques. Criamos leis, conselhos tutelares, fundos e programas sociais — tudo em nome de proteger “nossos pequenos”. Mas se precisamos de leis para garantir o óbvio — o direito de ser criança — é porque algo está terrivelmente errado.
O mesmo sistema que celebra a pureza infantil em propagandas é o que a devora no cotidiano. É o sistema que fecha escolas e abre semáforos onde meninos vendem balas. Que deixa meninas cuidando de irmãos enquanto suas mães enfrentam jornadas exaustivas. Que chama de “menor infrator” aquele que nunca teve oportunidade de ser apenas menino.
A infância, no Brasil, é um discurso bonito e uma prática cruel. Está nas propagandas da TV, mas não nas ruas das periferias. Está nos discursos de plenário, mas não nas salas de aula caindo aos pedaços. Está nas prateleiras de brinquedos caros, mas não nas mesas vazias das casas sem pão.
Deveríamos nos envergonhar por precisar de leis para proteger algo tão elementar. A criança deveria brincar, sonhar, crescer — não lutar para existir.
O verdadeiro amor à infância não está em um presente embrulhado, mas em uma política pública efetiva, em escolas de qualidade, em alimentação digna, em tempo de brincar e de aprender.
Porque enquanto o país legisla o óbvio, uma geração inteira cresce sem infância. E o futuro — esse que tanto mencionamos — já nasce amputado.




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