A declaração de Miriam Leitão sobre a inflação e o preço dos alimentos provocou forte repercussão nas redes sociais. Durante o Bom Dia Brasil, em 11 de agosto, a jornalista reconheceu que o brasileiro vai ao supermercado com R$ 100,00 e não consegue comprar quase nada, mas tentou explicar que essa percepção seria consequência da diferença entre a inflação e o nível dos preços.
Tecnicamente, há uma verdade na explicação: inflação menor significa que os preços estão subindo mais devagar, e não necessariamente que ficaram baratos. O problema está no modo como essa informação pode ser apresentada ao cidadão.
Para quem precisa colocar comida na mesa, pouco importa se o preço está subindo 10% ou 2% quando o salário continua não acompanhando o custo acumulado. O carrinho do supermercado é a realidade concreta — não uma simples “sensação”.
O próprio discurso de Miriam admite que “está difícil fazer todas as compras”. Portanto, transformar a percepção de milhões de brasileiros em mera sensação pode soar como uma tentativa de suavizar uma realidade econômica incômoda.
E existe ainda uma questão política. Em um ano eleitoral, apresentar indicadores favoráveis sem destacar suficientemente o impacto acumulado dos preços pode contribuir para construir a narrativa de que “tudo está melhorando” e que o problema seria apenas a percepção pessimista do consumidor.
Não se trata de negar os números oficiais. Trata-se de não usar números verdadeiros para produzir uma impressão enganosa. Se R$ 100,00 compram cada vez menos, o cidadão tem todo o direito de questionar: melhorou para quem?
A economia precisa ser explicada com números, mas também precisa ser enxergada pelo lado de quem paga a conta.